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[ESPECIAL] Pandemia atinge clubes amadores e afeta atletas da base

Estádio Manecão vazio | Foto: Igor BKZ
A pandemia do novo coronavírus forçou a paralisação de atividades esportivas em todo o planeta, algo que havia acontecido pela última vez apenas na Segunda Guerra Mundial, e ainda assim, apenas em alguns países. Desta vez, os impactos econômicos atingiram também os clubes de futebol amador de Curitiba, que ficaram totalmente sem arrecadação. Além disso, outra preocupação é o ano-limite dos atletas de base, que podem perder uma oportunidade ímpar de disputar competições e, até mesmo, de se profissionalizar.


#AMADOR CURITIBA
Por Yuri Casari

Na segunda quinzena de março, a Federação Paranaense de Futebol entrou em férias coletivas, que foram seguidas por um recesso de 60 dias, que ainda está vigente. Na época, seguindo as determinações decretadas pelo Governo do Estado de forma a prevenir o contágio do novo coronavírus, as competições de futebol profissionais e amadoras foram suspensas por tempo indeterminado, assim como todas as demais atividades dos clubes esportivos. Agora, dois meses depois e sem previsão de retorno, as equipes amadoras seguem sem atividades, e consequentemente sem receita.

Entre as principais formas de arrecadação que os clubes possuem estão o aluguel de campos, o aluguel de salões sociais e a venda de alimentos e bebidas nas lanchonetes. Outra forma de receita são os patrocinadores, que sem exposição, podem se ver obrigados a retirar os investimentos. O Trieste, maior campeão da Suburbana e uma das equipes mais bem estruturadas do futebol amador brasileiro, prevê um cenário em que clubes dependentes de investimentos externos terão de encontrar novas alternativas. “Alguns clubes que dependem exclusivamente da receita de patrocinadores podem sim ter de enxugar custos e ver o desempenho cair. Alguns clubes precisarão se reinventar e achar outras formas de obter receitas para a continuação de seus projetos”, opinou o secretário geral do tricolor de Santa Felicidade, Mauro Ignácio Jr.


O diretor executivo do Tanguá, Carlos Calmon, também acredita de que o futuro próximo será de contenção de gastos. “Muitos empresários e comércios não vão querer patrocinar pelas dificuldades que todos nós estamos vendo. Agora temos que ter inteligência e estratégia. Mas como não vamos fazer loucuras, creio que vamos conseguir o necessário para tocar a equipe”, avaliou.

O presidente do São Braz, Romildo Carignano, compartilha da visão de que será necessário se adaptar a uma nova realidade. “Todos teremos que reaprender e reestruturar nossas equipes. O São Braz já trabalha com um orçamento muito baixo, pois possui um grupo de pessoas e jogadores das bases e parceria com o Clube 3 Marias, que nos possibilita estar todo ano revelando bons jogadores e formando equipes competitivas. Mas, naturalmente, sem a exposição os patrocinadores se afastam”, afirma.

MELHORIAS E REFORMAS
Assim como o poder público, que tem aproveitado a paralisação forçada para realizar reformas em espaços esportivos da capital, os clubes também têm se movimentado neste sentido. O Trieste, por exemplo, está promovendo algumas melhorias no estádio Francisco Muraro. “Neste momento estamos fazendo algumas obras e manutenções no estádio. Já foi trocado o alambrado atrás de um dos gols. A fachada e a sala de troféus também estão passando por reformas, além de pequenos ajustes, como iluminação, entre outros, explicou Mauro Ignacio.

O Tanguá, que no ano passado conquistou o acesso para a elite local, é outra agremiação que está trabalhando nos bastidores, para que quando o futebol voltar, o clube possa estar pronto para as competições e para receber atletas e público no Estádio Francisco Tiago da Costa. “Estamos trabalhando todos os dias na reforma do estádio e estruturando todo o clube. Montamos nossa comissão técnica e estamos conversando com vários atletas”, disse Calmon. O Tanguá anunciou nos últimos dias a contratação dos zagueiros Muriel (ex-Vila Fanny) e Rafael Lemes (ex-PSTC), do lateral Tomate (ex-Capão Raso) e dos volantes Valdir (ex-Bangú) e Orlei (ex-XV de Novembro de Colombo).

Sede do Shabureya
Outra equipe que não teve descanso na preparação de seu campo de jogo foi o caçula Shabureya, que está imbuído na construção de um estádio próprio, no Sítio Cercado. O presidente do clube, David Allan da Silva, afirmou que os trabalhos em torno da “Arena Shabu” estão até mais intensos, mas que também foram atingidos pela pandemia. “Até os empresários se recuperarem vai levar uns dois anos ao meu modo de ver. Já estamos sentindo muito a falta de patrocinadores. Vemos pela construção da nossa arena, em que muitos colaboradores já recuaram nas ajudas anuais”, disse.

AÇÕES SOCIAIS
Alguns clubes têm aproveitado a situação atual para ampliar ainda mais a atuação como agente transformador da sociedade, através de ações sociais. O Operário Pilarzinho, por exemplo, atual campeão da Suburbana, reforçou a parceria que tem com a Central Única das Favelas (CUFA) e realizou uma grande campanha de arrecadação. “Foram mais de 50 toneladas distribuídas em 220 favelas de Curitiba e Região Metropolitana”, ressaltou o presidente do tricolor, Leandro Andrade. “O papel do Operário Pilarzinho vem sendo feito desde o início da pandemia, com inúmeras ações para de qualquer forma poder atender as famílias que passam por grandes dificuldades. Nós, como um clube da comunidade, estamos nos unindo para realizar várias ações tanto de prevenção, como campanhas de arrecadação de alimentos, máscaras, produtos de higiene. Estamos cada vez mais buscando parceiros que possam auxiliar neste momento delicado em que a meta é sobreviver”, salientou.

Presidente do Operário Leandro Andrade junto aos seus companheiros da CUFA realizando entrega dos produtos arrecadados
O São Braz, que no início de 2020 completou 100 anos de atividades sociais, é outra equipe que tem buscado oferecer um apoio aos afetados pela pandemia. “Nós do São Braz temos uma parceria com a paróquia do bairro São Braz, que possui um cadastro dos mais carentes da região e estamos contribuindo para fornecermos alimentação e produtos de higiene. Paralelamente a isso temos atuado pontualmente, atendendo a família de alguns jogadores da categoria Juvenil que moram no bairro, bem como outras famílias ligadas diretamente ao clube”, detalhou Romildo.

A questão de aproximação com a comunidade local é sempre um ponto importante quando se fala de futebol amador. Mas também há espaço para críticas quando não é promovida esta contrapartida. O técnico do Uberlândia, Joãozinho Ribeiro, alerta para o distanciamento dos clubes amadores da população ao redor de suas respectivas sedes. “A relação clube e comunidade perdeu sua essência nos últimos anos. São raros os casos de clubes que mantêm atividades sociais em conjunto com a comunidade, que ficaram limitadas a componentes de diretoria. É cada vez mais difícil essa comunicação e o levante da coesão para uma participação social local”, afirmou.

COMPETIÇÕES 2020
A realização de jogos no futebol amador ainda é uma dúvida que paira no ar. Nesta semana, a Secretaria de Estado da Saúde encaminhou um ofício à Federação Paranaense de Futebol liberando treinamentos físicos e individuais a atletas de clubes profissionais do Estado. A realização de atividades coletivas e jogos fica pendente por tempo indeterminado. A incerteza deste cenário faz com que exista a possibilidade de que a temporada 2020 do futebol amador não aconteça, o que divide opiniões. “Acreditamos que o campeonato neste ano irá começar um pouco mais tarde, mas irá ocorrer. Não existe uma posição oficial da FPF com relação à isso, mas a nossa expectativa é que os jogos ocorram, sem torcida, ainda neste ano, disse o representante triestino Mauro Ignácio Jr.

Já o mandatário do Pilarzinho não apenas acredita que não haverá competições, como também tem a opinião de que a temporada deveria ser cancelada. “Acredito que em setembro a outubro (voltam) os treinos. Eu acho difícil competição esse ano devido a situação no país, na maioria dos estados estar criticamente alto o número de óbitos e ocupação de leitos em momento de pico do vírus. Em prol da saúde da humanidade eu vejo como a melhor situação a ser seguida”, afirmou, em relação a não realização de partidas neste ano.


Por sua vez, o dirigente do Tanguá, Calmon, afirmou que seria problemático o cancelamento da temporada, mas avalia que isso não deve ser uma prioridade. “Existem muitas coisas mais importantes que o futebol para serem resolvidas primeiro. Espero que até julho o mundo esteja mais seguro e possamos voltar à vida normal. Possibilidades existem, mas todos perderiam (com o cancelamento). Mas nós do Tanguá estamos cientes e estamos preparados para ter e não ter competição”, destacou.

O presidente do Shabu é outro que concorda que não seria positivo o cancelamento, mas entende se houver a necessidade. “Nesse momento temos que pensar no geral, não podemos colocar o clube acima das pessoas e suas vidas. Os clubes também tem um aspecto social em ajudar e conscientizar a comunidade que estamos vivendo uma crise, onde não se tem raça, crença ou classe , e que todo cuidado com o próximo é importante”, afirmou.

Por fim, o presidente do São Braz confia em um retorno ainda neste ano. “Íamos disputar a Copinha e estávamos estruturados pra isso. Infelizmente essa disputa não mais ocorrerá. Estamos todos em compasso de espera. Minha percepção muito particular é que caso retorne, seria em agosto”, opinou.

Mas se há um consenso, pelo menos entre os personagens entrevistados, é de que a bola só pode voltar a rolar quando houver segurança a todos os envolvidos. “O futebol é a paixão do brasileiro, e acredito que todos estamos com saudades de assistir um jogo, de comer aquele pão com bife e encontrar os amigos nos campos. Neste momento os clubes devem ter a responsabilidade de atender às exigências das secretarias de saúde, e saber respeitar a hora certa de voltar. O futebol, que sempre deu alegria, não pode virar motivo de tristeza. Por isso, os clubes precisam se manter fechados nesse momento, para que quando a pandemia acabar, possa ser o motivo de alegria da comunidade que os cerca”, finalizou Mauro Ignácio.

PREOCUPAÇÃO COM A BASE
A suspensão de atividades esportivas atingiu em cheio as categorias de base do futebol profissional e amador. Em um momento de desenvolvimento, a inatividade pode atrapalhar o desempenho dos garotos quando o esporte retornar. Além disso, a possibilidade de cancelamento da temporada pode afetar principalmente os atletas em condições de “estourar a idade”, perdendo a oportunidade de disputar campeonatos e, em uma situação mais extrema, a chance de fazerem parte de uma equipe profissional.


“A gente vê muitos clubes do Brasil tendo que dispensar atletas, rescindir contratos de funcionários, comissão técnica. E isso atrapalha bastante a formação dos atletas. E aqueles que estouram a idade esse ano acabam sendo os mais prejudicados, porque às vezes é o último estágio antes do profissional e o menino pode se ver obrigado a desistir do sonho, pois dificilmente vemos os clubes profissionais dando oportunidades a meninos que já estouraram a idade. E são talentos que podem acabar desperdiçados por um inimigo que não depende apenas de nós para combater, e a gente como treinador fica muito chateado com isso”, ressalta o técnico Allan Ferreira, atual vice-campeão da Suburbana na categoria juvenil com o Capão Raso e treinador da categoria sub-14 do Hope Football Club, uma equipe voltada à formação.

O treinador Ewerton Glonek, que levou o título na categoria juvenil do futebol amador curitibano em 2018, tem opinião similar. “Com certeza teremos uma perda grande para a categoria de base, pois terão seu ciclo de formação incompleto e pela metade. Quanto aos atletas de último ano da categoria sub-20, por exemplo, serão absorvidos pelas equipes sub-23, mas a grande maioria terá que parar de jogar. No amador a situação seria pior ainda porque muitos atletas esperam muito para poder ter essa parte social realizada. Seria a única vez que muitos disputariam, e é algo que fica marcado para o resto da vida e outros ainda buscam a oportunidade de nesse último ano fazer uma boa competição para tentar possível teste ou buscar uma chance no futebol profissional”, afirmou.

De acordo com o treinador Lucas Garrett, campeão na categoria juvenil da Série B da Suburbana em 2019 pelo Desportivo Paranaense, essa situação está sendo estudada pelos dirigentes esportivos e podem haver iniciativas no próximo ano para contornar o problema. “É ruim a gente falar em perda de ano, porque depende muito do suporte que as federações vão dar, que a CBF vai dar. O suporte que o clube pode dar, ele está dando. É o suporte psicológico, físico, técnico, tático, de relacionamento, questões pessoais com o atleta. Para que isso se complete e o atleta não perca sua trajetória, é preciso que as entidades esportivas tenham atitude e procurem ajudar. Nas discussões e encontros virtuais com o pessoal de federações e clubes, tem se mostrado uma preocupação com a base. Tem se cogitado muita coisa para tentar ajudar, mas ainda não há nada de concreto. O mais próximo disso é estabelecer campeonatos para o ano que vem, com ano par, com os campeonatos sendo de categorias sub-14, sub-16 e sub-18”, explicou.

Outro ponto levantado por Garrett é de que os atletas precisam seguir focados no trabalho. “É uma situação obviamente negativa para todo mundo. Para o treinador, pro atleta, para a imprensa, para o restante da população. E é algo que não conseguimos mudar, nós precisamos nos adaptar a ela. O impacto inicial em todos os atletas, e independente de categoria, está sendo esse aprendizado mental de, a partir de uma situação negativa, você conseguir transformar a situação em coisas positivas. Manter uma mente boa, o nível de motivação, de crença e também o nível de treino, é claro”, destacou.


POSIÇÃO OFICIAL
A nossa reportagem entrou em contato com a Federação Paranaense de Futebol através da assessoria de imprensa da entidade com questionamentos sobre o retorno do futebol, os impactos que a pandemia tem causado na FPF e sobre a existência de planos de algum tipo de ajuda financeira aos clubes. Até o final desta reportagem, não obtivemos êxito no contato com a entidade.

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