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[FEMININO] Do amador de Curitiba à Seleção, Joicinha dedicou a vida ao futebol feminino

ARQUIVO PESSOAL DA ATLETA
Cria dos clubes da capital paranaense, Joice Luz coleciona títulos e passagens pela Seleção brasileira. Com mais de 25 anos dedicados ao esporte a ex-lateral se consagrou entre os principais nomes do futebol feminino do Paraná, que teve início no fim da década de 1990. Em entrevista ao portal Do Rico ao Pobre, Joicinha relatou os principais momentos dentro do futebol, desde as conquistas dos estaduais pelo União Ahú e Novo Mundo e também o momento em que se tornou mãe.


#FUTEBOL FEMININO
Por Daniel Tozzi

Quando começou a disputar os primeiros campeonatos em Curitiba, a ideia de ser jogadora profissional sequer passava pela cabeça da então adolescente Joice Luz. Joicinha, como ficou conhecida no mundo da bola, cresceu no bairro Augusta, extremo-oeste da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), e seus primeiros passos no esporte foram dados jogando futebol de areia no Esporte Clube Caiuá e no Olaria. Mesmo depois do debute no campo, pelo Ypiranga, Joicinha demorou para encarar o futebol como um sonho a ser perseguido e tampouco como possibilidade de fazer disso seu sustento. “Não era algo que eu me via fazendo quando me tornasse adulta, como profissão. As coisas foram acontecendo naturalmente. Sempre gostei de jogar, mas no começo eu não olhava muito na frente, nem traçava metas”, explica.

Em 1998 Joicinha recebeu um convite para jogar pelo União Ahú, já tradicional na cena de futebol amador feminino do Paraná. Na equipe, atuou por dois anos e foi bicampeã estadual, em 98 e 99. “Quando fui para o Ahú eu ainda era muito nova, e o clube já tinha um nome a zelar, com jogadoras conhecidas e conquistas importantes. Mas logo consegui meu espaço como titular e foi um tempo de muito aprendizado”, relembra a jogadora, que chegou à equipe com apenas 15 anos e na época atuava como meia-atacante. “A estrutura para época era boa, não recebíamos dinheiro, mas também não tínhamos gastos. Foram dois anos ótimos e com muitas viagens, num período em que o campeonato paranaense tinha muitas equipes e era bastante disputado”, acrescenta.

MUDANÇAS - Depois das conquistas no Ahú, Joicinha passou a vestir as cores do Novo Mundo, disputando campeonatos na categoria adulta e na equipe sub-17 do clube da zona Sul da capital. Após uma rápida passagem pelo Colombo para a disputa da Copa Sul-brasileira de futebol feminino de 2001, Joicinha retornou ao Novo Mundo, onde jogou até 2002. E foi nesse ano que o destino fez com que a curitibana ainda menor de idade atravessasse o Paraná e desembarcasse na cidade de Santos. “Um empresário chamado Manuel veio para Curitiba levar a Miriam, que jogava comigo no Novo Mundo, para o Santos. Por coincidência, esse mesmo empresário agenciava um jogador chamado Pindoka, que tinha me visto jogar um torneio no interior do Paraná e comentado sobre mim para o Manuel. E a Miriam também tinha elogiado uma colega de equipe para o seu Manuel que no caso era eu”, conta.

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Com 18 anos Joicinha passou a fazer parte do plantel da equipe feminina do Santos, que entre 2002 e 2008 também representava a cidade vizinha de Itanhaém em competições oficiais. “A prefeitura dava alimentação, moradia e ajuda de custo e, em troca, defendíamos a cidade em jogos regionais e no campeonato paulista”, explica. “Treinávamos forte em dois períodos, e foi aí que eu comecei a perceber que levava jeito para a coisa”, acrescenta Joicinha, que nesse período deixou de jogar como atacante. “Acharam que eu corria demais e me colocaram na lateral-esquerda”, comenta Joicinha. 

NO TOPO DA AMÉRICA - A consolidação da carreira no futebol feminino profissional veio a partir de 2008, quando o investimento do Santos na modalidade passou a ser maior. Além do elenco já formado anos antes, o clube trouxe estrelas do quilate de Marta e Cristiane. “O Santos era a nata do futebol feminino na época. Tínhamos vários patrocínios e também passamos a receber melhor, houve um salto na valorização das jogadoras”, relembra Joicinha. Ao lado desse elenco, a curitibana foi campeão paulista, da Copa do Brasil e de duas Libertadores da América, além de ter convocações para a Seleção principal. Detalhe: foi justamente nesse período que Joicinha passou pela experiência da maternidade.

“Descobri que estava grávida no final de 2008, já com quase seis meses de gestação. Me afastei do futebol durante o período final da gravidez e o tempo necessário após o parto. Quando meu filho tinha dois meses voltei para a academia e, três meses depois, para a rotina dos treinos. Posso dizer que voltei a jogar melhor do que antes, e com um ânimo a mais”, celebra. Mesmo em meio às dificuldades, Joicinha é enfática: “Sempre vi minha profissão como um trabalho comum, em que a mulher precisa sair de casa e encontrar maneiras de conciliar a vida profissional com a vida de mãe”, acrescenta a lateral Joice Luz.

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Depois da saída do Santos em 2011, Joicinha ainda disputou um campeonato carioca pelo Bangu e, entre 2011 e 2015, atuou pelo Vitória de Santo Antão, de Pernambuco. Antes da aposentadoria oficial, a lateral retornou para Curitiba e ainda atuou pelo Capão Raso. Longe do futebol de campo desde 2015, a distância das competições oficiais durou pouco, e Joicinha passou a jogar Futebol de 7 por equipes de Curitiba e da Região Metropolitana. Desde 2019 joga pelo Santa Cruz, time da capital, e também é presidente do F.A.C Sport Club Campo Largo, que disputa campeonatos masculinos da modalidade.

ESCOLHAS - Com mais de 25 anos de dedicação ao esporte, Joicinha pode falar com propriedade da realidade do futebol feminino no país.  Para ela, o cenário no Paraná não acompanhou as melhorias que ocorreram de um modo geral em todo o Brasil nos últimos anos. “Aqui ainda temos poucas equipes disputando o campeonato estadual. Em Curitiba temos o Imperial lutando incansavelmente para manter o time e a boa iniciativa do Athletico que montou sua equipe, mas no cenário nacional vejo que houve um avanço maior, tanto na questão da visibilidade quanto nos investimentos dos clubes nas categorias principais e na base”.

E é justamente na (falta de) categorias de base que Joicinha enxerga a principal dificuldade que o futebol feminino ainda enfrenta. De acordo com ela, os primeiros passos na carreira de um atleta deveriam vir juntos com a formação dos jovens enquanto cidadãos. “Nem todo atleta de base se torna jogador, mas é importante que ele tenha conhecimento e opções suficientes para saber qual carreira escolher. Infelizmente no Brasil, muitos abandonam a escola para jogar futebol”, explica. “Além disso, a carreira é muito curta, e o que as atletas farão depois?”, indaga a ex-jogadora, que durante seu período no Santos se formou em Administração. 

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Joicinha ainda destaca a vantagem que uma boa categoria de base pode proporcionar às jogadoras quando se tornam profissionais. “A formação de atletas de alto rendimento começa muito cedo e é na base que devem ser trabalhados os principais fundamentos para que mais tarde trabalhos individuais de correção de falhas técnicas não sejam necessários”, reflete a ex-jogadora. “Uma menina geralmente começa a jogar com mais de 15 anos. Nessa idade os meninos já estão sendo levados a patamares maiores de aperfeiçoamento, enquanto as meninas ainda estão na fase de aprendizagem e muitas vezes já possuem vícios, que sabemos que serão mais difíceis de mudar”, finaliza.

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