Carlos Magrão, um especialista no futebol amador de base de Curitiba

Carlos Magrão, hoje no Uberlândia, busca mais um título de Suburbana (foto: Dudu Nobre).
Com quase dez anos de carreira dentro da Suburbana, o técnico Carlos Magrão tem marcado seu nome na história do futebol amador comandando equipes vencedoras nas categorias de base. Com experiência até no futebol feminino, Magrão é o atual campeão da categoria juvenil do Amador, e em 2017 busca o bicampeonato, mas dessa vez comandando o rival Uberlândia. Conversamos com o treinador e contamos um pouco de sua breve, mas vitoriosa trajetória.

#Entrevista
Por @YuriCasari

Se falarmos sobre José Carlos Negrini, pouca gente vai saber de quem estamos tratando. Em compensação, todos no Amador de Curitiba já conhecem o trabalho de Carlos Magrão. O apelido, que nada tem a ver com o intérprete homônimo de música tradicionalista, remete à adolescência do hoje treinador, que era chamado de "magrão" pelo seu porte físico. O atual técnico do juvenil do Uberlândia completa no ano que vem dez anos de carreira na Suburbana. E pode, ainda em 2017, receber o título como presente adiantado, já que a equipe encontra-se nas semifinais da categoria. 

Magrão, hoje com 51 anos de vida, começou no mundo do futebol ainda muito novo, mas como "jogava muito mal", segundo as palavras do próprio, resolveu passar a comandar os times de bairro em que participava. Até que em 2008, foi convidado pelo Grêmio Ipiranga para a sua primeira experiência em uma equipe da Suburbana. "Trabalhei em apenas três clubes até hoje: Grêmio Ipiranga, Novo Mundo e Uberlândia". No Ipiranga, Magrão foi vice-campeão da Copa Integração, em 2009. No ano seguinte, acertou com o Novo Mundo, onde foi campeão da Série B de Juniores. Em 2011, veio o bicampeonato da competição. 

Bicampeão de juniores, bicampeão juvenil e campeão metropolitano feminino. Essas são as credenciais de Carlos Magrão como treinador (Foto: Dudu Nobre).
Em 2012, o Novo Mundo caiu nas quartas-de-final. No ano seguinte, a FPF encerrou a categoria juniores e recriou a categoria juvenil. O treinador acabou dispensado do time alvirrubro e assinou com o rival Uberlândia. E logo na primeira edição da competição, mais um título para a galeria de troféus de Magrão. Curiosamente, o Uber também era o último campeão da categoria, encerrada em 2006. 

No mesmo ano, Magrão passou por uma experiência diferente: comandar a equipe feminina do Novo Mundo. "Ninguém imaginava que alguém pudesse trabalhar em times rivais ao mesmo tempo. Mas isso faz parte do futebol. Quem ama o futebol faz isso", ressalta o comandante. Pelo time feminino, mais um título, dessa vez de campeão metropolitano, no ano de 2014. Aliás, para Magrão, o estado do Paraná tem muito a fazer pelas mulheres. "Nosso futebol feminino não tem incentivo algum da federação. Como um clube formador vai investir ou disputar um campeonato paranaense, que dura um mês, dois meses? Vai investir um monte e nem sabe se tem segundo turno, ou não tem. Aí vem um Foz do Iguaçu com apoio da Caixa Econômica, da Itaipu... e fica difícil. Eu acho que tinha que ter um torneio regional em Curitiba. Fazer um trabalho de base, do sub-15 até o sub-20. O Paraná está muito longe de ter competitividade no futebol feminino. 

Para Magrão, uma possibilidade seria apostar no amadorismo. "Teria que ter um campeonato amador. Uns três anos mais ou menos, dar visibilidade, pra depois sim buscar um respaldo financeiro. Se você chega hoje em uma empresa e fala sobre futebol feminino as pessoas nem te recebem. Já passei por isso". O comandante também elogiou as iniciativas de clubes de Curitiba que estão montando elencos femininos. "Pilarzinho e Imperial estão de parabéns. Mas eu vejo que o futebol feminino é muito discriminado, inclusive pelos clubes".

Em quase dez anos de Suburbana, Magrão comandou as equipes do Grêmio Ipiranga, Novo Mundo e Uberlândia (Foto: Yuri Casari).
Após a experiência no futebol feminino, Magrão teve uma segunda passagem pelo Grêmio Ipiranga, sem muito sucesso. Mas em 2016, em sua volta ao Novo Mundo, o técnico montou uma equipe muito qualificada e voltou a faturar o título do Juvenil da Suburbana, com alguns atletas sendo encaminhados para clubes profissionais. Em 2017, Magrão topou um novo desafio. Reformular o Uberlândia, último colocado do juvenil do ano anterior, com apenas uma vitória e dez derrotas na competição. E os resultados apareceram rapidamente, e o Uber terminou a fase de classificação na quarta posição e está nas semifinais do torneio, em que enfrenta o favorito Trieste. Quem vê o bom trabalho em campo, não sabe das dificuldades que o treinador encontra durante o dia a dia. "Tenho muita dificuldade em juntar todos no treino. Uns estudam de manhã, outros à tarde. Outros trabalham. Muitos não tem passagem (pra ir treinar). É uma dificuldade treinar duas vezes por semana. Eu mesmo só consigo treinar uma vez por semana".

Apesar de vitorioso, Carlos Magrão não se envaidece, e divide os méritos com toda a equipe do Uberlândia. "Essa boa campanha se deve também ao João Luiz, que é uma pessoa extraordinária. É quem abre o campo, dá treinos quando eu não posso devido a meus compromisso profissionais. Tem potencial para ser treinador, e sem ele o juvenil do Uberlândia não estaria onde está. Agradeço muito a ele. Agradeço ao César, a Cris, até o Joãozinho Ribeiro, que às vezes dá conselhos pra gente. Nossa diretoria apoia muito o juvenil. Agradeço ao presidente Algacir, que deu um apoio muito grande". 

E o destaque, claro, não fica apenas para quem faz o trabalho fora das quatro linhas, mas principalmente para quem veste a camisa do clube durante os jogos. Do elenco atual do Uber, Magrão destacou alguns nomes "Hoje eu tenho um carinho especial com o zagueiro Dias. Ele é fantástico, um jogador preparado para o time adulto. Mas ele também disputa um torneio de futebol de salão e acaba desfalcando nossa equipe. Também destaco o volante João, o lateral-esquerdo Gustavo (que já jogou a Copa SP) e o Daniel, artilheiro do nosso time e que já esteve no Paraná Clube".

Magrão à beira do gramado durante a final do Juvenil 2016, entre Novo Mundo e Trieste
(Foto: Yuri Casari).
Com a experiência de ter montado diversas equipes campeãs, Magrão detalha algumas dificuldades do cargo de treinador em categorias de base, e também tenta explicar a razão de seu sucesso. "A maior dificuldade na base é o pouco caso, até dos próprios clubes. Acredito que se a Federação optasse hoje por não ter base, a maioria dos clubes concordaria. Ele só focam no time adulto. Isso é uma lástima. a maioria dos clubes dá pouco incentivo", critica. "O sucesso de um treinador depende muito da sua capacidade de conhecimento. Não fiz curso algum, não tenho pretensão em fazer. Mas já fui campeão cinco vezes. Tem treinador que trabalha em clube que paga, tem um monte de curso e sequer chegam em finais. Eu tenho muito conhecimento em jogadores. Tenho uma lista com mais de 150 jogadores. Já tenho em mente um time-base pro ano que vem. Um treinador tem que ter capacidade, conhecimento e um pouco de sorte. Sorte eu tenho bastante", brinca o treinador, que também vê uma oportunidade de ajudar os jovens atletas. "Um grande objetivo nosso é na educação. É tirar o menino da criminalidade, da rua, das drogas", finaliza. 

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